sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Faz de conta

Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de        conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.

Clarice Lispector

domingo, 23 de setembro de 2012

Uma grande luta


RECEBI POR EMAIL E FIQUEI EMOCIONADA. SEI BEM COMO É ESSA LUTA. ACOMPANHEI A DOENÇA DE MINHA IRMÃ MARILDA, DE 1997 A 6 DE JUNHO DE 2002, QUANDO FINALMENTE FOI VENCIDA PELO CÂNCER. NOSSA ÚLTIMA CONVERSA, UMA SEMANA ANTES DE SEU FALECIMENTO, ELA DISSE: TUDO O QUE EU MAIS QUERIA NA VIDA ERA VIVER, MAS JÁ NÃO TENHO MAIS CHANCE NENHUMA, ESTOU DESTRUÍDA, NÃO TENHO MAIS FORÇAS. ESSAS PALAVRAS ESTÃO GRAVADAS EM MINHA ALMA E NÃO ESQUECEREI JAMAIS, NADA PODIA FAZER. MAS O QUE SEMPRE QUIS DIZER ESTÁ LOGO ABAIXO...E MÁ, ONDE VOCE ESTIVER SAIBA QUE A LUTA NÃO FOI EM VÃO, APRENDEMOS TODOS NÓS, VOCE EM SUA LUTA CONTRA A DOENÇA E SEU EU... E NÓS NO SOFRIMENTO E IMPOTÊNCIA POR NADA PODER FAZER,  APENAS ACOMPANHAR E MINIMIZAR, MAS DEIXOU-NOS MUITAS REFLEXÕES... E ASSIM...VAMOS SENDO TODOS LAPIDADOS UM POUCO MAIS E SUPORTANDO MELHOR NOSSAS MISSÕES!



Tem vezes que achamos que nossa vida está um saco!
 
Tudo e todos contra nós.
 
Porém Deus está em tudo e com todos.
 
A missão que nos é imposta, é por que teremos condições de concluí-la e assim atingir a evolução.
 
Sempre devemos lutar até o fim de nossas forças, pois é isso que nosso Pai espera de nós.
 

ANA LUIZA






Ninguém está livre desta doença “democrática”, por assim dizer. Ela afeta bebês e idosos, jovens e adultos, homens e mulheres, gordos e magros, fumantes e não fumantes, brancos e negros. Ao colocar sua cabeça no travesseiro, apenas agradeça por sua saúde. E se você puder fazer mais que agradecer, estará numa categoria muito diferente de pessoas, nas quais eu mesma não me incluo.

trecho do blog: http://vidanormal.blogspot.com.br/

 


O BEIJA-FLOR
Auta de Souza (1876-1901)

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou... Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!